sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

"O mundo começou com o chão", por Inês Fonseca Santos

Sobre Tudo no mundo começou com um sim, de Filipe Raposo e Sara Anjo
Fábrica das Artes / CCB, Janeiro de 2016


A bailarina Sara Anjo em Tudo no mundo começou com um sim
(c)CCB/Flávio Pereira

Ensinaram-me em tempos que não se deve começar pelo fim. Se, num ou noutro momento da minha vida, aceitei a "regra", foi apenas para persuadir algum interlocutor, um professor, por exemplo, foi apenas para demonstrar que sabia estruturar pensamento e discurso, que sabia cumprir as regras para me fazer entender e, quem sabe?, receber em troca uma boa nota. Dar aos outros o que esperam ouvir pode ser uma regra saudável, se o propósito for arrumar o assunto. Mas parece-me que a saúde das regras se deve medir pela iminência do desafio que podem instaurar. E, se o objectivo é demorarmo-nos no assunto, a receita pode, com efeito, passar por deixarmos o princípio para depois. Talvez seja este o motivo por que me autorizo a começar pelo fim, ao escrever um texto sobre um espectáculo dedicado aos mitos da origem do mundo e apesar de o meu propósito ser o de convencer quem ler estas linhas a assistir a Tudo no mundo começou com um sim, de Filipe Raposo e Sara Anjo. Não será, em rigor, uma questão de convencimento, mais de convicção — de convicção na partilha. Este tem sido sempre o mote — ou a regra... — dos melhores espectáculos que tenho visto "para a infância": a potencialidade dessas criações no âmbito da partilha, encantando, espantando "todas as infâncias", para usar uma expressão de Fernando Mota que assenta na perfeição em tudo o que se tem mostrado na Fábrica das Artes.

Ora, no fim de Tudo no mundo começou com um sim, chegado o momento de as crianças fazerem perguntas aos criadores, inverteu-se o jogo (e "jogo" é palavra essencial neste contexto, como comentarei adiante): a bailarina Sara Anjo perguntou às crianças como começou o mundo. Um dos meninos respondeu: "O mundo começou com o chão." Sara Anjo rematou: "Isso é importante." E é importante não apenas porque o menino o disse depois de ter visto o espectáculo, já o mundo tinha sido criado diante dos seus olhos por Sara e Filipe, mas também porque ele sabe que, para se construir, criar, é preciso uma base, um chão. Seja esse chão um "sim" ou uma "explosão", será sempre a afirmação de um corpo: o corpo de Filipe a tocar piano, o corpo de Sara a dançar. Adão e Eva tinham os pés assentes no chão do Paraíso. Antes da dor. E depois do caos. Depois de se terem afirmado, de terem dito "sim": ao Criador, um ao outro, à tentação... Sempre de pés assentes no chão, ultrapassado o nada e o silêncio primordiais.

Filipe Raposo e Sara Anjo em Tudo no mundo começou com um sim
(c)CCB/Flávio Pereira

Estes movimentos, mesmo que evocando e confrontando, ao longo do espectáculo, diferentes cosmogonias que não apenas a citada, são sugeridos pela música e pela dança e encontram uma das suas expressões mais interessantes e felizes, do meu ponto de vista, nas sequências de respirações da bailarina. Respirando, para além de se afirmar a vida, produz-se som e movimento, uma espécie de música e uma espécie de dança essenciais em que a nossa respiração se cola à respiração do mundo, esse mundo em forma de aquário que Sara segura nas mãos enquanto Filipe toca, ampliando tanto os sons, como os movimentos da bailarina. Este mundo-aquário vai sofrendo transformações com a passagem do tempo, que, sendo aqui o tempo do espectáculo, é, acima de tudo, o tempo do espectador, da memória do que até então viveu, experienciou.

Há ainda a palavra — depois da música, note-se —, a palavra que se sussurra ao ouvido como um mantra, numa repetição que ecoa pela sala e se torna libertadora, congregante (que o digam os tímidos...). Depois, a palavra é dita em voz alta, por Sara: à frase de Clarice Lispector, "Tudo no mundo começou com um sim", soma-se uma nova parcela, "Esta é a história do princípio", também ela repetida com o efeito simultâneo de reforço e alteração. Temos finalmente palavras para dizer o não-dito; temos finalmente as árvores, as montanhas, os rios, os animais, num paralelismo entre música e pensamento que se cumpre conforme Filipe vai lançando desafios à imaginação do público.

Sara Anjo em Tudo no mundo começou com um sim
(c)CCB/Flávio Pereira

Chegados aqui, e aqui podia ser o meio da peça, mesmo que este texto tivesse começado pelo princípio, o jogo está instalado. E o ritmo. Até o da hesitação. Entre o não e o sim, com gestos capazes de os mostrar. Entre os sons: aos instrumentos tocados por Filipe, o piano e o metalofone, somam-se os chocalhos que Sara tem presos aos tornozelos. Entre as luzes e as sombras, que povoam o espaço, que multiplicam gestos e objectos, revelando que nós e o mundo somos sempre maiores do que aquilo que a nossa vista pode alcançar. Eis o momento em que podemos coincidir — e esta é talvez a mais poderosa mensagem deste espectáculo-jogo, que é todo ele apelo à imaginação e aos sentidos: a revelação desse instante em que podemos coincidir, depois de todo o caos, depois de tanto desencontro, de tanta dúvida.

A angústia do criador é a da folha em branco, a do vazio. Por onde começar? Tornou-se ontem claro, para mim, que é pelo sim. Reaprendi-o, reencontrei-o. Até porque agora existe este chão seguro que a Sara Anjo e o Filipe Raposo criaram. Sobre ele, com a memória deste momento inaugural, é possível caminhar rumo ao jogo que é a existência. Interminável e cíclico, como o tempo do mito.

Inês Fonseca Santos
(Nota: a autora escreve de acordo com a antiga ortografia)

Sara Anjo e Filipe Raposo em preparação para o espetáculo
(c)CCB/Manuel Ruas Moreira

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